quarta-feira, 24 abr, 2024

BC diz que arcabouço fiscal impacta inflação

IBC-Br
Agência Brasil

 

Da Agência Reuters

 

Em meio à espera pela proposta de arcabouço fiscal do governo, o Banco Central afirmou que a relação entre a apresentação do texto e a convergência dos preços para as metas não é direta, enfatizando o foco em melhorar as expectativas para a inflação, que seguem desancoradas, além de pregar paciência na condução da política monetária.

Apesar de fazer aceno ao governo ao afirmar que o pacote do Ministério da Fazenda para ajustar as contas públicas reduz o risco de alta da inflação no curto prazo, com efeitos já sentidos em estatísticas oficiais, a ata do Comitê de Política Monetária (Copom), publicada nesta terça-feira, manteve tom duro, na visão de analistas.

“Não há relação mecânica entre a convergência de inflação e a apresentação do arcabouço fiscal, uma vez que a primeira segue condicional à reação das expectativas de inflação, às projeções da dívida pública e aos preços de ativos”, avaliou.

O documento afirmou que a materialização de um arcabouço fiscal sólido e crível pode levar a um processo mais benigno de baixa de preços ao reduzir as expectativas de inflação, a incerteza na economia e o prêmio de risco dos ativos domésticos.

O destaque dado às expectativa, que, segundo a ata, foi um tema “bastante debatido” na reunião do Copom, ocorre em meio a uma deterioração nesse indicador, com o mercado e o BC projetando uma desancoragem, especialmente em prazos mais longos.

Segundo a ata, o movimento também é impactado por questionamentos sobre uma possível alteração na meta de inflação, que chegou a ser debatida no governo. Para o BC, a credibilidade da meta contribui para o bom funcionamento do canal de expectativas.

A equipe econômica aposta na apresentação do novo arcabouço fiscal nas próximas semanas para melhorar o ambiente econômico e abrir caminho para que o BC corte juros.

O economista chefe do Banco Original, Marco Caruso, afirmou que a ata mostra a importância de manutenção de postura austera diante de um descolamento das expectativas.

“O BC está aguardando o (arcabouço) fiscal, que ainda não saiu, e mais importante, que ainda não tramitou. Ele faz questão de mostrar a importância da tramitação e do que vai sair do Congresso no final”, disse. “É um Copom firme naquilo que enxerga como as melhores práticas para a política monetária, e que não vai mudar isso por conta de pressão política”.

Para o economista da CM Capital Matheus Pizzani, o Copom advertiu que, apesar do avanço em medidas de ajuste, ainda há incerteza em relação à situação fiscal.

“A apresentação e aprovação do arcabouço fiscal se mostra condição fundamental para melhoria do ambiente macroeconômico em nível suficiente para se debater a reversão do atual ciclo de aperto monetário”, afirmou.

O BC decidiu manter a Selic em 13,75% ao ano em reunião na semana passada, sem apresentar sinal concreto sobre um eventual afrouxamento monetário à frente, contrariando expectativas no mercado e no governo por uma indicação sobre o momento em que poderia iniciar os cortes nos juros. A ata também não trouxe sinalização nesse sentido.

 

PERSEVERANÇA

 

O documento desta terça reafirmou mensagem do comunicado da semana passada de que o BC irá perseverar até que ocorra a desinflação e a ancoragem das expectativas, voltando a dizer que não hesitará em retomar ajustes nos juros se necessário.

Diante de pressões no governo por cortes de juros bancários, com intenção de buscar linhas de crédito mais baratas no BNDES, o Copom voltou a destacar que a possível adoção de políticas parafiscais expansionistas pode diminuir a potência da política monetária e elevar a taxa neutra de juros.

A estimativa do BC para a taxa neutra –aquela que não estimula nem contrai a economia– foi mantida em 4%, mas a autarquia avaliou cenários alternativos. Segundo a autoridade monetária, uma elevação no indicador impacta mais fortemente as projeções de inflação a partir do segundo semestre de 2024, que atualmente está em seu foco de atuação.

“O Comitê reforça a importância de que a concessão de crédito, público e privado, se mantenha com taxas competitivas e sensíveis à taxa básica de juros”, disse.

 

EXTERIOR DETERIORADO

 

O BC afirmou que o ambiente externo se deteriorou e citou a liquidação de bancos nos Estados Unidos e a crise do europeu Credit Suisse como fatores que geram viés negativo para as condições financeiras e o crescimento global, apesar de elevada incerteza.

Segundo o documento, o BC analisa possíveis canais de contágio desses incidentes sobre o Brasil, mas avalia que o impacto direto sobre o sistema financeiro doméstico é, até o momento, limitado.

A ata afirmou que a melhor contribuição da política monetária segue sendo o combate à inflação e suavização de flutuações econômicas, com membros do Copom ressaltando que não há dilema entre controle inflacionário e estabilidade financeira, havendo separação de instrumentos para atingir os diferentes objetivos.

O documento apontou que houve aperto adicional nas condições de crédito no Brasil, com parte dos membros do Copom avaliando que o movimento está em linha com o esperado, enquanto outros acreditam que a mudança está mais intensa que o projetado, mas focalizada em mercados específicos.

“O Banco Central possui os instrumentos de liquidez apropriados e necessários, ligados à política macroprudencial, para endereçar fricções relevantes localizadas no sistema, caso ocorram”, disse, em meio a avaliações no governo de que a possível crise bancária internacional e o resfriamento do crédito poderiam levar o BC a cortar juros.

 

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