quinta-feira, 23 maio, 2024

Missão impossível: devolver a seleção ao povo

Missão
Twitter/FIFA

Por Ricardo Linhares*

 

Como bem definiu Nelson Rodrigues, a seleção brasileira era a pátria de chuteiras. Era a época em que o povo se sentia representado em campo, via no suor e talento daqueles jovens negros, brancos e mulatos um pouco (ou muito) de si mesmo. Além da mistura de raças, nossos times eram formados por jogadores que buscavam seu lugar ao sol driblando adversidades, ganhavam menos dinheiro do que mereciam, quase todos tinham em comum uma história de origem simples iniciada em algum canto pobre do país. Mesmo com tantos obstáculos, não tardariam a mostrar nosso valor para o mundo, fazendo-nos bradar que, com o brasileiro, não há quem possa.

O principal recorte da saga canarinho encantadora durou 25 anos e nos rendeu três títulos mundiais. De 1958 a 1982, com taças conquistadas ou não nas Copas, o futebol foi motivo de orgulho para o povo brasileiro, que passou menos sofrido pelas intempéries de um período histórico-político conturbado em nosso país. Dentre as razões para se identificar tanto com a seleção, havia o fato de que víamos o craque do nosso time brilhar com a camisa amarela (ou azul). Era uma época em que os jogadores dificilmente iam atuar fora do país, passavam anos e anos defendendo as mesmas cores. Para se ter ideia, quase todos os maiores ídolos da história dos principais clubes atuaram nesse período: Zico (Flamengo), Roberto Dinamite (Vasco), Garrincha e Nilton Santos (Botafogo), Rivellino e Sócrates (Corinthians), Ademir da Guia (Palmeiras), Pelé (Santos), Falcão (Internacional), Reinaldo (Atlético-MG) e Tostão (Cruzeiro).

Por tudo isso, o povo se mobilizava para pintar as ruas quando havia Copas do Mundo, cantava orgulhosamente a cada vitória importante, sofria com as derrotas como se tivessem arrancado-lhe um pedaço da alma (ah, o Mundial de 1982…). Reunia-se até mesmo para ver os amistosos, havia ansiedade ao ouvir as convocações no radinho. Sentia-se parte de cada jornada do início ao fim.

Quando essa paixão começou a arrefecer? Nas últimas décadas, nossos jogadores passaram a ir para o exterior aos milhares, e isso gerou diversos fatores de enfraquecimento do futebol brasileiro em comparação aos rivais pelo mundo. Em primeiro lugar, era preciso com que se adaptassem ao estilo de jogo de cada país, evoluindo taticamente ao mesmo tempo que reduziam as ações técnicas e instintivas que nos caracterizavam – não só o drible, também os improvisos que assombravam quem pouco nos conhecia. Sim, ainda conquistamos duas Copas, mas alguém ousa dizer que encantamos em 1994 e 2002?

Outro fator de afastamento é que diversos jogadores recentes da seleção atuaram pouco no Brasil, sequer defenderam ou tornaram-se ídolos em grandes clubes. Quem se lembra por quais times Hulk jogou antes de ir para o exterior? E David Luiz, Roberto Firmino, Ederson, Raphinha, Gabriel Martinelli? Sim, alguém há de dizer, Vinícius Júnior é venerado pelo torcedor do Flamengo, mas só vestiu a camisa rubro-negra em 70 partidas, 30 como titular. Após pouco mais de um ano como profissional na Gávea, com apenas 18 anos, foi-se para o Real Madrid. Não há link de idolatria, aquele desejo de ver o craque venerado brilhar também com a amarelinha. Por último, não menos importante, o perfil dos convocados é completamente diferente de outrora, jogadores realizados financeiramente que muitas vezes não demonstram em campo o orgulho de estarem representando o nosso país. Entendível, o maior sonho atual é vestir a camisa do Barcelona, Real Madrid, PSG, atuar na Premier League…

Diante do cenário atual e após mais um fracasso, desta vez no Catar, a CBF decidiu contratar um técnico estrangeiro. Curiosamente, Carlo Ancelotti provavelmente seria titular na Copa do Mundo de 1982, acabou cortado por lesão. Atuava na Roma, tinha o grande Paulo Roberto Falcão como companheiro de meio-campo. Os dois possivelmente se enfrentariam no jogo que ficou para a história como “Tragédia de Sarriá”, a derrota para a Itália de Paolo Rossi e Cia. que marcou o fim da era de encanto do futebol brasileiro.

A principal missão de Ancelotti será evitar que, pela primeira vez na história, o Brasil fique seis Mundiais consecutivos sem conquistar a taça. Dificílimo, a geração que tem como ícone o popstar internético Neymar não parece ter o foco e a determinação que, por exemplo, a Argentina do “apenas craque” Messi esbanjou na última Copa. Mais improvável ainda – para não definir como impossível – é imaginar que um técnico estrangeiro consiga fazer com que o povo volte a se sentir tão orgulhoso e partícipe das campanhas como se deu na Suécia, no Chile, no México e na Espanha, numa época em que éramos diferenciados e rendíamos manchetes estupefatas como a do jornal chileno El Mercurio, em 1962. “Garrincha: ¿de qué planeta usted viene?”. Só nós sabíamos, afinal aqui era o país do futebol. Tempos de encanto e cumplicidade que se foram, não serão retomados jamais.

*Ricardo Linhares é jornalista, trabalhou como repórter e editor na Revista Placar, Jornal dos Sports, Lance! e GE.com. Colaborador em diversos livros e publicações sobre história do futebol. Gerente da Agência Frog – Comunicação, Marketing e Tecnologia.

 

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