sábado, 13 jul, 2024

Esporte

Italo Godinho: ‘O baile do Cisne Negro’

Italo
Neymar beijando a chuteira do Rei - X/Puma

*Por Italo Godinho

 

Eduardo Galeano escreveu que “A história do futebol é uma triste viagem do prazer ao dever.” Se não me atrapalho, o ditado — ao qual resisto — explica parte do que se passou com Neymar. Desde que escolheu Paris, em agosto de 2017, o brasileiro tornou-se protagonista de uma novela coalhada de dramas. E seus escrupulosos censores, que nunca dormem no plantão, criticam-no severamente a menor falta. Eles buzinam a quatro ventos o declínio de Neymar, sem jamais elogiar com a mesma disposição. Se, por descuido, elogiam, pronto! Que Deus lhe dê força, pois assim a carga de reprimendas é muito pior.

Bem verdade que o cronista deve lembrar o que muitos desejam esquecer. Então, lá vou eu: Neymar é um craque maiúsculo, com lugar eminente na história do futebol mundial. Já gostar da figura é opção. Eu mesmo tenho reservas à pessoa, mas derreto-me com seu futebol malicioso, atrevido e sensual. Contra a Bolívia, no primeiro jogo das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2026, tive outro desbunde. Embora machucado e sem disputar um jogo válido desde fevereiro, o camisa 10 da Seleção Brasileira fez outra partida memorável.

No princípio, andou ansioso e até perdeu um pênalti, cujo erro logo tratou de compensar disparando passes que mudaram a marcha do jogo. Depois, em ato de pura classe, Neymar esgueirou-se entre quatro bolivianos, que nem viram a cor da bola. Foi um lance maravilhoso que valeu meia dúzia de penalidades: o atacante, driblando sob medida, passou como um moinho de vento até chegar à porta do gol, donde chutou com o pé esquerdo. Infelizmente, prevaleceu o palmo do arqueiro Viscarra. Chorei por um minuto. Defesas assim deveriam ser proibidas pela Constituição Federal! Como, no país das Emendas, ninguém pensou algo do tipo?

Nada obstante, seguiu resoluto. Fez lançamentos como Gérson e driblou como Garrincha, aplicando fintas de corpo e chapéu ab-rupto (que palavra chic). Em ocasião mais oportuna, Neymar foi às redes, ultrapassando, enfim, a marca histórica do Rei Pelé, segundo as contas da FIFA. O lance, bastante simples, foi prontamente esquecido pelo gol, apoteótico não pela estética senão pela relevância. Na comemoração, o craque de 31 anos pulou dando socos no ar — uma homenagem a Pelé, que, suspenso na glória de seu trono, o lugar mais alto do futebol, aplaudia tudo.

Nesse ponto, a superioridade brasileira era evidente e os jogadores levavam tudo muito a sério. Bruno Guimarães e Rodrygo, o raio, nem piscavam. Porém, não vou comentar o match, pois a Seleção de Fernando Diniz vai estrear mesmo a 17 de outubro, no Estádio Centenário de Montevidéu, contra o Uruguai de Loco Bielsa.

Voltemos, então, a Neymar, que ainda achou tempo de fazer outras diabruras de menino. Lá pelas tantas, meteu um pelotaço — um teledirigido, como dizem os argentinos — que explodiu no travessão. Só não reclamo porque fez outro gol, em passe trocado do canhoto Raphinha, ampliando o recorde supracitado. Agora, ele ostenta o número de 79 gols em 125 jogos oficiais pela Seleção Canarinho, entre os quais 8 foram em Copas do Mundo.

Os adversários, furibundos de cólera, castigaram-no com novas patadas, visto que jogar daquele jeito era má-criação, pensaram. Que graça! Digo mais: com a bola no pé, Neymar fez como quis, ou por outra, foi dono e senhor do meio-campo, divertindo-se qual nos tempos de gala. Escapulindo em direção à meta, parecia mesmo um cisne negro desenhando arabescos em lago glacial.

Em resumo, os que tanto cantaram suas desventuras, ofendendo o futebol como o bêbado ofende o vinho, agora choram sua glória. Eis a vida como ela é.

 

*Italo Godinho é Bacharel metido a cronista (embora nunca tenha escrito nada) e carioca praticante. Sempre que possível, garimpa memórias escarafunchando as ruas da Cidade. Entre paróquias, bibliotecas e salas de aula, gasta o tempo que não tem.

 

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