terça-feira, 16 abr, 2024

Opinião

Italo Godinho: ‘Tradições aos milhões’

Italo Godinho
Olhe aqui, Mr. Buster (1962) - Foto: RedeBrasil Atual

*Por Italo Godinho

 

Os poucos que me conhecem, ou que tomam parte em minhas opiniões, sabem que torço para o Vasco da Gama. Alguns não sabem, porém, que joguei na base do Botafogo de Futebol e Regatas, a partir de quando vi crescer uma simpatia que logo tratei de camuflar. Sim, porque os vascaínos, como em romances vitorianos, querem todo amor para si; ou melhor, para o Vasco. Não cedem uma grama do muito que tem. Prova do que digo é o brado “Ao Vasco nada? Tudo!” Justo e belo, não vou negar. Mas, louco que sempre fui por história, decidi explorar o club em favor do qual estava a correr — e correndo de modo que só os 13, 14 anos permitem, quero dizer, cheio de euforia e satisfação.

Naquele tempo me veio às mãos a obra “Estrela Solitária – Um Brasileiro Chamado Garrincha”, do mestre Ruy Castro. Foi o primeiro livro de gente grande que debulhei — sem terminar, claro, pois na aurora da mocidade os calhamaços costumam enfastiar. Confesso que, de pequeno, não era chegado à literatura, a menos que nela houvesse qualquer coisa de futebol. Por outro lado, já via filmes maduros e alguns documentários. No tempo das parabólicas, um curta-metragem dirigido por Ney Costa Santos fez minha cabeça: “Heleno e Garrincha”, de 1987. A ficção trata de comparar a personalidade dos gênios opostos em tudo — exceto no amor à bola e às mulheres. O filme, apesar da malformação das imagens, é intrigante. Até hoje cogito a hipótese ventilada naquele videozinho:

E se Heleno, o herói das tardes de sol, estivesse em campo na final do IV Campeonato Mundial de Futebol, em 1950?
E se a doença não houvesse descabeçado o seu impávido talento?

O desfecho seria outro, posso assegurar. Doutor Freitas — que só obteve um título de campeão carioca exibindo-se pelo Vasco, em 1949 — era “a gana em forma de gente”. Naquela trágica decisão, faltou um botafoguense de sangue quente, urrando de peito inchado.

Depois daquele filme, explorei no maior segredo uma porção de almanaques e jogos, até que apontei o meu próprio escrete botafoguense: Manga; C.A. Torres, Sebastião Leônidas, Nilton Santos e Marinho Chagas; Didi e Gérson; Garrincha, Jairzinho, Carvalho Leite e P.C. Caju. Que 4-2-4, bicho. Cachorro na cabeça!

O tempo, cheio de fôlego, correu depressa. Na tentativa de apanhá-lo, eu envelheci. E quando reparei de novo, já estava surrado feito bola de couro que esmigalha no rachão à vera. Entretanto, as memórias do batido campo de Marechal Hermes suportaram os efeitos do tempo. E por qualquer motivo que me escapa, o Botafogo atual me trouxe à mente a camaradagem de menino, da qual posso me arrepender amanhã em profundo aborrecimento de mim mesmo. Vai que o Glorioso encontra o Gigante da Colina na final do próximo Campeonato Carioca?! Xô! Xispa! Vaza, vira-lata! O tratado de paz logo passa à declaração de guerra.

Sei que, até lá, tenho gosto de ver a garra que o combinado alvinegro exibe. Sempre que necessário, os atletas compensam os mínimos defeitos com tremendos esforços.

— Isto é amplitude moral, pô. Coisa de quem ganha até par ou ímpar e bafo-bafo. — disse-me o velho Nestor, um jornaleiro da Av. M.al Floriano que faço muito gosto em provocar:
— Vai dar zebra, seu Nestor.
— Vira essa boca pra lá! Você entende patavina de futebol!
— Agora também sou jornalista. — respondi fingindo autoridade.
— E desde quando jornalistas sabem do que falam? Qualquer um é jornalista hoje em dia, rapaz. — falou tripudiando, embora eu mesmo concordasse.
— O senhor pode até fazer pouco-caso, mas uma coisa é certa.
— Qual? — ele perguntou.
— Há coisas que só acontecem com…
— … o Botafogo, eu sei. Uma delas é ser campeão! — estrilou com o dedo em riste.

Peguei meu jornal e fui-me rindo antes que o pagode encrespasse. Quando a gente quer fazer graça, às vezes aumenta um pouco. Agora, porém, não mudei um pingo da conversa.

Seu Nestor, como todo botafoguense, anda muito à flor da pele. Também pudera! O último jogo contra o Palmeiras — no qual houve de tudo — foi um verdadeiro nocaute. Agora todos querem ver se o Botafogo tem forças para se agarrar às lonas, ficando de pé até o gongo final.

Hoje, em São Januário, haverá outro pugilato. À esquerda, o Vasco que luta para sobreviver na elite do futebol brasileiro; à direita, o Botafogo que parece emocionalmente estressado. Ambos clubes encontram-se pressionados, mas em situações opostas no Clássico da Amizade.

A depender do resultado, o futuro de um e outro estará relativamente decretado. O vitorioso, seja lá quem os liames do jogo determinarem, terá muito o que comemorar. Que vença, então, o melhor… ou o pior.

 

*Italo Godinho é Bacharel metido a cronista (embora nunca tenha escrito nada) e carioca praticante. Sempre que possível, garimpa memórias escarafunchando as ruas da Cidade. Entre paróquias, bibliotecas e salas de aula, gasta o tempo que não tem.