sábado, 13 abr, 2024

Opinião

Luiz Cezar Fernandes: Covid no Varejo

Luiz Cezar

*Por Luiz Cezar Fernandes

 

A crise da Lojas Americanas não é um fato isolado e apesar da grande repercussão do escândalo contábil, a parte mais intrigante dessa história continua desapercebida do debate público, escondida entre uma infinidade de reportagens sobre as supostas conspiratas de seus executivos.

Como uma empresa centenária, de grande adesão popular, foi capaz do entregar tamanho fiasco financeiro e o que isso diz sobre o mercado de varejo no Brasil?

A verdade é que o varejo é implacável até com os profissionais mais experientes. A margem é muito pequena para um comércio com tantas complexidades. A conferir que, nos últimos tempos, muitas das gigantes do Brasil e nos USA acabaram patinando. A Lojas Americanas, não fosse a suposta fraude contábil (a ser debatida nos tribunais), seria apenas mais uma tentando se organizar entre resultados ruins.

No segundo trimestre desse ano, a Magalu apresentou um prejuízo de R$ 301,7 milhões. A Via Varejo registrou R$ 492 milhões no negativo. Marisa (-R$ 63,4 milhões), Guararapes (-R$ 17,6 milhões), GRUPO SBF (-R$ 32,6 milhões) e C&A (-R$ 126,3 milhões), são outros exemplos. Se cada empresa terá a sua particularidade, penso que, de uma forma mais genérica, podemos encontrar alguns erros que, de um jeito ou de outro, esbarram na atuação de todas elas.

 

1º. O mito da vantagem na abertura de muitas lojas

 

A simples abertura de novas lojas, independentemente do volume de vendas, não acarreta contribuição marginal obrigatória. A verdade é que abrir uma nova loja traz o risco de represamento excessivo de capital em estoque. Quando esse crescimento (do estoque) não acompanha a rotação dos produtos, a empresa se vê em apuros. Se pensarmos que o investimento em novas lojas (estoque e imobilizado) foi financiada a um custo elevadíssimo, fica ainda mais fácil entender o porquê dessa crise generalizada.

 

2º. Projeção de juros imprecisa

 

A futurologia nunca é bom negócio, mas certos negócios são obrigados a dialogar com esse campo e exercitar a arte do palpite. O varejo é um deles. No Brasil existe uma cultura importante de financiamento das compras, com parcelas se estendendo por até 24 meses. As empresas são obrigadas a buscar dinheiro de curto para financiar o próprio estoque.

Quem não mudou de postura e buscou dinheiro de médio ou longo, acabou preso nesse ciclo vicioso. Pegou no curto para cobrir o estoque, esperando uma taxa mais favorável no mês seguinte, se deparou com um cenário de anomalia. As projeções mais conservadoras deram errado e as empresas amarguraram prejuízos importantes.

Vale lembrar que o endividamento das famílias orbitou a casa dos 70%. Logo, além de tomar dinheiro caro, as empresas pararam de receber e viram as vendas despencarem. Uma empresa comprava com financiamento de 90 dias, poderia levar 200 dias para vender essa mercadoria e sabe-se lá quantos outros para receber integralmente.

 

3º. Estoque sem perícia

 

É muito comum que o varejista separe um espaço importante para linha branca e de eletrônicos. Além de a margem ser muito pequena, a concorrência feroz, esses produtos ainda tomam um espaço enorme de estoque. É preciso ter muita expertise para adotar essas linhas. Tomemos o caso de venda de celular como exemplo. Poucos anos atrás, 70% dos usuários trocavam de aparelho anualmente, agora esse percentual é de apenas 20%. A demanda caiu sensivelmente. O preço de um celular, por vezes, é o dobro ou o triplo o que se paga em uma geladeira. Então, existe uma dificuldade nada desprezível em prever e administrar o próprio estoque.

 

4º. E-commerce

 

O erro do e-commerce está nos centros de distribuição. O mercado acreditava que ter vários centros de distribuição perto dos consumidores seria o nome do jogo. Não é bem isso. Joga melhor que tem o menor número possível de centros, desde que estejam 100% automatizados. E-commerce, em razão da margem menor ainda, não pode ter tanto estoque e nem gerar um custo administrativo elevado. A Lojas Americanas, por exemplo, abriu duas dezenas de centros de distribuição ao mesmo tempo, com isso subiu os produtos em estoque. No final, apenas criou mais despesas.

A meu ver, esses quatro pontos demandam mais atenção do que recebem de empresários e investidores. O foco deveria estar na manutenção das lojas que, por si só, rentabilizam, sem esperar a contribuição marginal. Automatizar e fechar centros de distribuição. E se adequar a essa nova realidade de juros no Brasil. Não adianta apelar para o incerto, é preciso ter muito juízo. Repito, a Lojas Americanas não entrou em crise por conta da maquiagem contábil, ela fez essa maquiagem porque, muito provavelmente, já estava em crise.

 

Com colaboração de Humberto Nader

 

* Luiz Cezar Fernandes é financista, co-fundador de bancos como o Garantia e o Pactual. É uma das principais referências do Mercado Financeiro e de Capitais brasileiro.

 

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