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quinta-feira, 25 jul, 2024

Raquel Machado: O famoso e inantingível ‘e se’

Raquel Machado

Por Raquel Machado*

Sabe quando você para pra pensar na sua vida, em tudo o que conquistou, desde uma casa nova até uma gastrite? E no fim das contas você acha que saiu perdendo? E se eu tivesse feito isso… e se não tivesse feito aquilo… e se não tivesse dito tal coisa… e se nunca tivesse me casado com ele(a)?! Minha vida estaria muito melhor se…

O “se” é o local mais inóspito e cruel que uma mente pode ocupar. Ele não tem cheiro, cor, forma ou voz. É só uma sombra borrada das suas expectativas assassinadas.

Um local de falsa felicidade, onde na verdade só serve para promover culpa, mal estar e autopunição. Ah sim, esse local é uma masmorra cheia de opções para o seu eu punitivo.

Enquanto você cria cenários que nunca aconteceram, seu inconsciente elabora uma história de dar inveja ao próprio Hitchcock.

E existe um padrão de dor e vício em perder tempo da sua vida pensando em como teria sido algo que você nunca saberá e nunca acontecerá. É minha amiga e meu amigo, nunca.

Quanto mais energia você coloca no “se”, menos energia você tem para o hoje.

Temos uma tendência a desperdiçar tempo e força com uma maestria invejável! Nos chicoteamos pelos cinco ou quarenta anos ´desperdiçados´, mas não temos amor suficiente para planejar os próximos cinco ou quarenta anos que estão por vir.

Como se continuar na mesma vida fosse a punição por não ter acertado tudo o tempo todo e de primeira. Como se o espetáculo da existência tivesse que ser sempre uma apresentação de estreia na Broadway, ignorando totalmente a construção do roteiro, os ensaios, a escolha e troca do elenco, figurinos, mais ensaios, testes de luz (e sombras) até ter uma apresentação que te faça sentir orgulho.

Orgulho esse que raramente chega, não porque sua vida não vale a pena, mas porque você também é aquele crítico escroto que em três parágrafos acaba com uma vida inteira, sempre esperando a si mesma cair do palco.

Ignoramos o processo de construção pessoal, acreditamos na falácia de que tudo tem que ser perfeito. Nos iludimos com pressões internas e externas, com prazos fictícios, com valores que muitas vezes nem são nossos, com honras a ancestrais que sofreram ou a ordens de nossos pais, pra subirmos no palco da vida, entrarmos em cena, e proferirmos em alto e bom tom que poderia ter sido melhor, se…

Se você pudesse voltar no tempo e fazer novas escolhas, provavelmente seriam novas escolhas ruins. Porque não eram sobre suas preferências em si, mas sobre o seu nível de consciência naquele momento, de maturidade e discernimento.

Então pegue todas as suas experiências que só suas opções ruins puderam te proporcionar, junte todas as formas de como não fazer e reedite seu caminho, experimente uma nova conquista, um novo emprego ou um novo jeito de encarar a vida. Faça uma receita nova, viaje, compre um sabonete diferente, arrisque-se mais! Agradeça pelos anos que passaram, eles construíram você, faça o melhor com o que existe e por gentileza, se faça um enorme favor, jogue o “e se” no lixo pra sempre.

 

*Raquel Machado é psicanalista, mãe do Felipe e escritora nas horas vagas. Palestrante, M.A. em Neurociência, Analista Didata e uma entusiasta do comportamento humano.

 

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