quinta-feira, 23 maio, 2024

Rita Lee: Virtuosa, visceral e única

Marco Senche/Wikimedia Commons

 

Por Leonardo Torresini*

 

Rita Lee é uma figura central no rock brasileiro. Ex-membro da banda de rock seminal Os Mutantes, eventualmente ela se separou do grupo e iniciou uma carreira solo extremamente bem-sucedida nos estilos rock e dança que durou por mais de 30 anos.

Filha de uma pianista amadora, ela nunca teve aulas de música. Em vez do tradicional baile de debutante, ela pediu para ganhar uma bateria. Lee formou uma banda com mais dois amigos e eram bastante bons nos vocais, fazendo backing para estrelas como Tony Campelo, Jet Blacks, Demetrius e Prini Lopez, quando conheceram os irmãos Arnaldo e Sérgio Dias Baptista. Adotando o nome O’Seis (um trocadilho com “os seis” e o modo caipira brasileiro de dizer “vocês todos”), gravaram o single “O Suicida”, que nunca foi lançado.

Quando o resto da banda foi para a faculdade, só três deles permaneceram. Escolhendo o nome Os Mutantes, eles fizeram backing vocal para Nana Caymmi na composição de seu então marido “Bom Dia” (Gilberto Gil). Quando Gil os conheceu, ele imediatamente percebeu que Os Mutantes estavam na mesma linha dos Baianos. Convidando-os para acompanhá-lo no III FMPB da TV Record em 1967, eles ficaram em segundo lugar com “Domingo no Parque” do Gil com a adição de Rogério Duprat conduzindo uma orquestra com seus arranjos revolucionários.

A novidade das guitarras elétricas e uma irreverência generalizada na mistura de sons orquestrais estranhos irritou muito a plateia; o Tropicalismo nascente estava chegando ao mundo sob vaias pesadas. Logo depois, gravaram seu single “O Relógio”. Em 1968, apresentaram-se no álbum/manifesto Tropicália ou Panis et Circensis (Philips), com Nara Leão, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Tom Zé.

Foi nessa época que gravaram seu primeiro LP, Os Mutantes. Naquele período, durante suas turnês um tanto frequentes pela Europa, gravaram um LP que nunca foi lançado totalmente, com exceção de algumas faixas incluídas em Jardim Elétrico de 1971. Também em 1968, acompanharam Caetano no III FIC da TV Globo, em “É Proibido Proibir”, e apresentaram “Caminhante Noturno”, que ficou em sétimo lugar. Em 1969, participaram do IV FMPB com “Dom Quixote” e, de Lee e Tom Zé, “2001”. No mesmo ano, apresentaram-se com os Baianos na casa noturna Sucata, no Rio, e gravaram seu segundo álbum, também autointitulado. Foram para a Europa, tocaram em Cannes, na França, no MIDEM, e em Lisboa, Portugal.

Em 1970, eles voltaram ao Brasil e apresentaram o show O Planeta dos Mutantes, o primeiro experimento de multi-mídia no Brasil. No mesmo ano, Lee gravou seu álbum solo, Build Up, produzido por Arnaldo Baptista. Logo depois, eles tiveram uma temporada no Olympia em Paris, na França. Com o baixista Liminha (hoje um respeitado produtor de estúdio) e o baterista Dinho, eles participaram do V FIC com “Ando Meio Desligado” (Arnaldo e Sérgio). O LP A Divina Comédia é desse ano e O Jardim Elétrico (Polydor) do próximo. Em 1972, Lee gravou outro álbum solo com respaldo dos Os Mutantes, Hoje é o Primeiro Dia do Resto de Sua Vida (Philips). Depois de lançar No País dos Bauretz dos Mutantes, Lee saiu do grupo.

Na verdade, ela foi expulsa por não ser proficiente o suficiente como instrumentista. Após um período de depressão, durante o qual ela se isolou em sua casa, ela decidiu abandonar sua carreira. Mas, ao mesmo tempo, ela estava escrevendo o material que a tornaria famosa como artista solo. Em 1973, ela apresentou-se junto com Lúcia Turnbull no show Phono 73. Formando a banda de rock Tutti Frutti (que incluía Lúcia) para uma série de apresentações no Teatro Ruth Escobar, adotaram o nome Rita Lee & Tutti Frutti por sugestão da gravadora. A banda a seguiu para o sucesso nos anos seguintes, lançando os sucessos de Lee “Ovelha Negra”, “Agora só Falta Você”, “Esse tal de Roque Enrow”, “Miss Brasil 2000” e “Jardins da Babilônia”. Em 1974, lançaram Atrás do Porto tem uma Cidade (Philips). Em 1975, Lúcia saiu da banda e eles gravaram Fruto Proibido (Som Livre).

Em 1977, grávida pela primeira vez, ela foi presa por ter maconha e condenada a um ano de prisão domiciliar, quando compôs com Paulo Coelho (que agora é um escritor esotérico de best-sellers) o single “Arrombou a Festa”, que vendeu 200.000 cópias. Ela continuou se apresentando, com permissão especial do juiz. Elis Regina a convidou para uma apresentação em duo em um show de TV especial na TV Bandeirantes, quando gravaram “Doce de Pimenta”, que Lee compôs especialmente para Elis.

Foi durante esse tempo que ela se casou informalmente com Roberto de Carvalho, que foi incorporado em sua banda como guitarrista e compositor. Logo em seguida, partiram para uma turnê com Gilberto Gil para Refestança, que foi gravado e lançado como o LP homônimo. Em 1978, Lee e sua banda gravaram o LP Babilônia, quando o grupo foi dissolvido devido a dissensão interna.

Ela então formou o grupo Rita Lee & Cães e Gatos e partiu para uma série de shows sob o mesmo nome, aludindo às brigas entre os membros. No álbum do ano seguinte, veio “Mania de Você”, seu maior sucesso. Lee decidiu não ter mais uma banda. Com “Lança Perfume”, ela alcançou reconhecimento internacional, sendo até reconhecida pelo Príncipe Charles como sua cantora favorita.

No início dos anos 80, ela fez grande sucesso gravando “Joujou e Balangandãs” junto com João Gilberto. Seus álbuns, abertamente dançáveis e completamente comprometidos com o resultado comercial, estavam quebrando todos os recordes de venda e seus shows tornando-se mega-produções. Durante a turnê de 1983 para Rita Lee e Roberto de Carvalho – Flagra, ela começou a ter problemas de saúde, desmaiando no palco em uma apresentação. Ela então decidiu descansar, gravando outro álbum naquele ano sem fazer turnês de apoio.

Em janeiro de 1985, ela cantou no Rock in Rio de forma enganosa. Havia muitos rumores de que ela tinha leucemia. Depois de mais sete meses de obscuridade, ela gravou outro álbum que recebeu boas críticas, mas foi ignorado pelo público. Em 1986, como Lita Ree, ela realizou um sonho de longa data: apresentar um programa de rádio, que foi apresentado na 89 FM de São Paulo e depois na Rádio Cidade do Rio.

Em 1987, ela lançou Flerte Fatal sob duras críticas e brigas com a imprensa. Depois de mais dois álbuns e ainda sob fogo cruzado dos críticos, ela encerrou a parceria com seu marido, mas trabalhou com ele no filme Fogo e Paixão. Mais tarde, ela trabalhou no filme Dias Melhores Virão de Cacá Diegues, que lhe concedeu um prêmio no Festival Denzer, na Europa, em 1990. Personificando o cantor/compositor falecido Raul Seixas no curta-metragem Tanta Estrela por Aí, ela foi nomeada Melhor Ator pelo prefeito do Rio.

Na televisão, ela trabalhou nas novelas Top Model e Vamp e apresentou seu próprio programa, TV Leezão, uma versão para a MTV do Rádio Amador. Em 1990, ela se apresentou no show Bossa n ‘Roll, que teve a maior audiência naquele ano e lançou a febre acústica. O álbum vendeu 350.000 cópias. Depois de um álbum gravado com sua antiga companheira Lúcia Turnbull, Lee foi expressamente solicitada por Mick Jagger, que exigiu pessoalmente que ela abrisse a turnê dos Rolling Stones no Brasil. Ela foi um grande sucesso, suplantando o Spin Doctors.

Depois disso, ela fez turnê para A Marca da Zorra, novamente com Roberto de Carvalho. No ano seguinte, ela se tornou a primeira mulher e primeiro ícone pop a receber o Prêmio Shell de MPB. Em 1997, ela recebeu o distinto Prêmio Sharp de Música. Ela seguiu com um CD e uma turnê para Santa Rita de Sampa e a mega-produção Acústico MTV. Em 2000, ela lançou o CD 3001.

Encerro a minha breve biografia da Rita por aqui, porque nos anos 2000 sua obra está ainda mais amplamente relatada na mídia de uma forma geral e minhas linhas pouco contribuiriam para o entendimento dela a partir de então.

 

*Leonardo Torresini é músico especializado em blues e rock.