sábado, 13 jul, 2024

Revista ‘A Lavoura’: Irradiação de alimentos

Entrevista

Por determinação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), todos os alimentos devem passar por tratamento fitossanitário quarentenário, uma medida que objetiva assegurar que os vegetais, partes e seus produtos, bem como embalagens e suportes de madeira, nas operações de exportação e importação, fiquem livres de pragas.

Diante dessa necessidade, a irradiação alimentar, reconhecida como um tratamento quarentenário, é uma técnica que pode substituir o banho térmico das frutas, por exemplo, ajudando a vencer barreiras fito ou zoo-sanitárias, aumentando a competitividade e viabilizando a exportação de novos produtos.

Dentro deste contexto, apenas empresas credenciadas podem executar esse serviço. Com isso, o controle fitossanitário associado ao tempo de prateleira torna essa tecnologia um dos caminhos viáveis e seguros para erradicar a fome no mundo.

Em entrevista à Revista A Lavoura, Ana Paula Guimarães de Farias, engenheira agrônoma pela UFRRJ e mestranda de Biossitemas pela Universidade Federal Fluminense, conta como essa técnica contribui para a segurança alimentar e quais os benefícios para a saúde e bem-estar da população

 

A Lavoura: Quais as vantagens da irradiação de alimentos?

Ana Paula: Os alimentos irradiados mantêm suas propriedades nutricionais e organolépticas, além de não apresentarem qualquer risco toxicológico, radiológico ou microbiológico para o consumo humano. A radiação de é uma ferramenta eficaz para aumentar a vida útil dos alimentos, o que, consequentemente, reduz perdas que têm início no pós-colheita até à mesa da dona de casa e contribui com a segurança alimentar ao aumentar a oferta de alimentos ao consumidor.

 

A Lavoura: Essa técnica apresenta alguma desvantagem, ou seja, ela interfere na qualidade do produto?

Ana Paula: Ela não interfere na qualidade do produto quanto à mudança em seu sabor e textura, pois as doses definidas para alimentos são muito baixas e nenhum resíduo de radioatividade permanece no alimento processado. Em 1981, um comitê formado pela Food and Agriculture Organization (FAO) e pela Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que alimentos irradiados com até 10,0 kGy (kilogray – unidade de medida para quantidade de radiação absorvida) são totalmente seguros. Importante considerar que os métodos de conservação de alimentos como a pasteurização, o congelamento e a irradiação promovem perdas de alguns nutrientes, como vitaminas. As possíveis perdas de nutrientes causadas pela irradiação, por serem mínimas, não interfere na qualidade do alimento.

Entrevista
Ana Paula Farias/Divulgação

 

A Lavoura: O processo pode ser utilizado para a conservação de qualquer alimento?

Ana Paula: Muitos alimentos já foram testados e aprovados para serem submetidos à irradiação, dentre eles especiarias, tubérculos, grãos, frutas, carne suína, frango, pescado, frutos do mar, ervas medicinais. Quanto menos água tiver o alimento, mais bem-sucedido será o tratamento. Cabe destacar que os produtos que contêm muita gordura não podem ser tratados à temperatura ambiente porque eles ficarão com o sabor rançoso, mas não estarão estragados.

 

A Lavoura: Em que consiste o uso controlado da irradiação de alimentos, conforme o padrão francês?

Ana Paula: Atende o padrão da União Europeia (UE), de até 10,0 kGy, com inspeção nas unidades irradiadoras, baseadas em coletas, testes e comunicado ao órgão fiscalizador. Todas as unidades são inspecionadas conforme acordado no nº 3 do artigo 7º da Directiva 1999/2/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 22 de Fevereiro de 1999, relativa à aproximação das legislações dos Estados-Membros respeitantes aos alimentos e ingredientes alimentares tratados por radiação ionizante. Dentre outras normas, há ainda a provação de unidades instaladas, Conforme o nº 2 do artigo 3º da Directiva 1999/2/CE, os alimentos só podem ser irradiados em instalações de irradiação aprovadas. No que diz respeito às instalações na UE, a aprovação é concedida pelas autoridades competentes dos Estados-Membros.

 

A Lavoura: A irradiação é acessível a qualquer produtor rural? Fale sobre o custo benefício.

Ana Paula: No Brasil não foram instaladas unidades de irradiação de alimentos em escala industrial, o que dificulta o acesso dos produtores a essa tecnologia e ainda impede o país de redistribuir alimentos a preços menores para todos, dado o aumento do tempo de prateleira, o que muito ajuda na redução dos custos com transporte, pois os alimentos suportam mais tempo nos caminhões. Já o custo da tecnologia em si deve ser avaliado, considerando principalmente a redução das perdas de alimentos em todo o processo, o que vai justificá-lo inevitavelmente.

 

A Lavoura: Ela exige o uso de algum equipamento? É de fácil utilização?

Ana Paula: Sim, um irradiador precisa ser instalado e operado com pessoal treinado. A irradiação de alimentos está a serviço da humanidade. Quando essa tecnologia for finalmente vista como uma oportunidade de combater a insegurança alimentar e colocada em prática para esse fim, o mundo vai experimentar o que tanto prega os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável de ODS 2 e 10: o direito universal à alimentação, através da erradicação da fome, com a redução das desigualdades.

Por: Redação A Lavoura
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